9.8.07
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E então "devagar se vai ao longe". (…)
Pensando bem, os ditos populares mais clichês fazem parte de uma massa que (ao meu ver) poderiam nomear como forma inteligente de delinear grandes experiências de vida, portanto não os nego. Descarto a mesmice e penso somente na sabedoria implícita nesses ditos populares que se não cansam e atrapalham são (e por que não?) de grande valia.
E venho pensando que "de grão em grão - não comido - a galinha não enche o papo". O que na verdade é uma brincadeira, afinal "de grão em grão a galinha enche o papo", no sentido de "devagar se vai ao longe". Ou seja, um pouco por dia, faz muito à longo prazo. E esse muito não tem a ver necessariamente com a idéia de "volume", e sim de "acontecimento favorável". Isso tudo porque mantenho uma dieta à alguns dias e tenho uma meta para eliminar alguns dos quilos que a balança me revela.
A balança é aquela amiga duvidosa da mulher. É aquela amiga que a gente nunca sabe quando é que "vai dar o cano", "dar mancada" ou atrapalhar nossas vidas, justo quando mais precisamos dela. E mesmo quando ela nos chateia, perdoamos e voltamos à procurá-la. Algumas vezes a balança-amiga-duvidosa tem uma informação preciosa que precisamos saber a todo custo (e que somente ela sabe, e que somente ela revela), e para isso é útil. Ao mesmo tempo que caçoa e se aproveita de nós, nos vingamos ao tentar (e muitas vezes conseguir!) ser melhor que ela. Nenhuma de nós gostamos de ser derrotadas por uma amiga (que sempre se revelou duvidosa), ou mesmo por uma balança, essa que é a verdade.
Mas não quero detalhar a alma feminina, até porque muitas vezes eu não entendo nem mesmo aquela que reside em mim. Principalmente em sua complexidade. Da mesma forma, não sinto muita vontade de aprofundar as características culturais dos ditados populares, assunto do qual iniciei essa prosa. Apenas pretendo unir aquilo que a sabedoria popular insiste em dizer ao poder latente da mulher que existe em mim. E então, "sem tempestade num copo d’água" poder enfim concretizar.

Eu conheço bem a força que ela tem. Não é comum, é eficaz. É um sopro-tufão de inverno que impele a alma. É o bramido da fera. É a vertente voraz que arrasta. E conspira, como qualquer idéia positiva. Porque não teme. Porque não se esconde. E flagra. É de improviso que causa incomodidade e alvoroço, num pulo, num tapa. Calcula e administra, sempre aplaudida. E eu a vejo sobressair, me espanto mas não posso desprezá-la. É impossível me desfazer dela. É impossível deixá-la de lado, impossível. E continua, encanta, seduz, transborda admiração. Vitoriosa, contrói o império que almejo, mas ela surge sem que eu perceba. Não posso agarrá-la. Ela divide-se entre muitas outras, somando apenas vinte e cinco por cento de mim.

Eu não sei por onde começar. Desgastada, necessito me lapidar. Busco uma - ou mais de uma - resolução. Aprender ou ensinar? Quero conselhos, mas questiono cada opinião que gentilmente me entregam. Sou a ingratidão tocando a campainha do desespero. E me invade alguns sentimentos efêmeros que pouco me impulsionam, pouco me lançam para frente. Sou atada pela voz da indecisão e da concórdia, contrapostas clamando felicidade, vendendo o peixe que lhes cabe. As idéias parecem sedutoras, mas se assemelham à fantasias (que teimam em dizer que são realidades). Será que deixei de acreditar na fada-dos-talentos-que-tenho? Antes tão apaixonada por tudo o que escrevia, e ultimamente avalio tudo como meia-boca. Até mesmo os que não saem do papel e ninguém - meu Pai! - ninguém lê. Minha mente me causa estranheza. Vou sair para pensar… Me deixar seduzir pelos planos que tenho, são muitos, são muitos… É só o que tenho em mãos, em gestos.

Distraída, não sei se sou. Mas imagino um mundo que não é o meu. Como se eu flutuasse em pleno verão, no sofá, olhando para a tela da tevê. A tevê ligada o dia todo, não gosto, mas tolero. Tolero as coisas que dizem sobre os meus movimentos. Tolero olhares e tolero palavras. Não ligo e não lido também, como se fosse indiferente. E é, como aquela história do velho sábio que diz que os desaforos são como os presentes, se não os aceitamos pertencem à quem os oferece. Aprendi a ser calma e tolerante de repente. Num piscar de olhos, sem pensar na minha existência ouriçada. Quem é que não aprende a lidar com uma vida conturbada? Na marra, meu querido, na marra. Não dá para voltar no tempo, consertar o que não foi, e quase foi e já é. Se é, já foi. Mas eu tento compreender essa faísca modesta que permanece acesa em mim. Despretenciosa? É. Como quem tem sonhos e os tranca no porão. Como quem tem garra, mas tem um ócio estagnado. Como quem tem fé, mas tem confusão. O que há de errado então? Pensando bem, distraída pela maré que carrega a vida. Não tem culpa. Sem medo e sem culpa eleva uma virtude e detona inúmeros talentos.

O panorama de hoje me diz que sofro de felicidade aguda e irremediável. Uma palavra, uma idéia, uma crítica ou um desaforo não me retira desse meu quadro prognosticado. É de dias assim que quero viver, mesmo que tenha que arquitetar outros planos para urgir essa tal felicidade. E a vejo por toda parte, e a sinto no sol que brilha no quintal. No lustre que reluz na sala de jantar. No perfume da nuca do menino que faz sonhar meu coração. Uma rede para balançar, um novo casaco felpudo com cachecol, um telefonema inesperado. Eu a percebo no canto do galo velho recordista do despertar, no paladar doce que ivade a língua, na canção que sacramenta cada pequeno momento. Naquilo que escrevo, naquilo que fotografo, naquilo que canto ou leio. E eu a vejo, e como não? No passear da joaninha sob a folha, nas asas da morpho cypris que beija a flor, no sorriso da criança que brinca de ser quem não é. E aprendo com ela a olhar ao longe e dosar meu comportamento alternado de inebriar o sopro que faz minha vida acontecer. E continuo diante do diagnóstico que sofro, do qual não quero me curar. Amar é a certeza e a esperança contínua de prevalescer nesse estado, por isso - e tão somente - o menino que tem perfume e faz sonhar meu coração é que me proporciona muito mais felicidade e me faz acreditar na simplicidade desse sentimento ilustre.
* Esse tal menino é meu namorado João Paulo.

Vou te contar que ultimamente eu demoro à dormir. Talvez seja culpa dos horários que venho "escolhendo" para acordar, mas não acredito muito nesta hipótese. Acho que essa micro-insônia se deve ao meu pensamento eufórico que flutua distante, que pensa coisas tão mirabolantes que no outro dia nem se lembra. Todavia milagrosamente me recordo agora uma viagem de ontem a noite. À princípio imaginei um mundo soberbo, com pessoas neuróticas por carinho e compreensão. Depois tentei entender porque as pessoas se encontravam nessas condições. Pensei na frieza áspera que vejo nas balas perdidas, no caráter indolor que habita os pensamentos violentos. Depois desisti, achei negativo em demasia pensar uma coisa dessas antes de dormir, no mínimo teria pesadelos. Então busquei uma coisa mais suave para decifrar o mundo que imaginei. Pensei na evolução do homem, me veio então suas invenções. E me veio a poética frase em mente: depois que o telefone foi inventado, a distância foi encurtada, mas surgiu uma saudade muda. E continuei pensando. Quem contestaria uma invenção miraculosa? Ninguém, por isso a saudade permaneceu. Pensei que o telefone deveria ser fantástico, por sua magia, por sua rapidez, por sua praticidade, por ser capaz de tornar as cartas coisas obsoletas. Pensei ainda que o telefone fez as pessoas ficarem mais acomodadas, fez os encontros diminuirem, fez as visitas não serem mais visitas-surpresa. Imaginei meu aniversário com todas as visitas de pessoas que costumam apenas telefonar… Enfim, muitas coisas foram pensadas, prós e contras que envolveram (e envolvem!) essa engenhoca que se chama telefone. Depois disso acho que adormeci, pois não lembro de mais nada. Porém refletindo hoje sobre meus pensamentos vãos, percebi que o ponto fraco da invenção humana é não poder inventar um meio de consertar o que ficou perdido pelo caminho de suas invenções. Para isso o remédio é usar o meio mais remoto da qual ainda não foi inovado: a saudade transfigurada em presença, num encontro face-a-face.

Eu tenho medo, e admito. E sei que em seu universo particular não é diferente. Mas não é engraçado? Tememos até dizer o que nos causa temor. É da natureza humana, somos todos receosos. Mantemos uma posição irresoluta, temos medo também da idéia que as pessoas produzirão de nós quando revelarmos nossos medos.
E o medo mais trabalhoso que temos é o medo de enfrentar. Esse medo necessita além da calma, uma ausência inata de covardia. Alguns medos, em especial, necessitam mesmo atrevimento, atitude e audácia. É exatamente como quando ele quer beijar ela. O medo dele é que barra sua atitude ousada, e esse medo tem a ver com rejeição, é o medo do não, e todo mundo conhece. O que acontece com ela - quase ninguém sabe - não é diferente, não deixa de ser um medo mesclado à ansiedade. Com a diferença que muitas vezes ela sabe disfarçar melhor e mantém um sorriso lívido no rosto. Ele pensa que ela está calma, quando ela quer gritar.
Está bem. Eu entendo que você tenha medos mais sérios. Quem não tem? Alguns medos que se confundem à fobias patológicas. Pavor de altura, de multidão, de lugar fechado, de cachorro grande que escapou de casa, já vi gente com medo de viajar de carro por muitas horas. Conheço bem os medos, tenho muitos e convivo com eles, lado a lado. Ás vezes eles ganham de mim, eu sei. Mas eu me mantenho invicta por tempos também. E percebi que depois de vinte dois anos aniquilei vários deles. Uma estratégia infalível é conversar com seus medos, entender porque você os têm é a base de tudo. Por exemplo: Eu tenho medo de postar meus textos no blog depois que os escrevo. O motivo? Aqui eu deixo o texto fluir despreocupada, porém eu sonho em ser escritora e publicar meus livros, por isso quero honrar aquilo que escrevo. É simples, pronto, ficou mais fácil assim!
Ter medo é natural, é sinal que amamos a nós mesmos e nos protejemos. Podemos ter medo de enfrentar algo, alguém ou uma situação, mas não conheço ninguém que tenha medo de querer ao menos entender seus medos.

Sabe instinto materno? Eu o vejo por toda parte. Ás vezes sinto a vida como se fosse uma mãezona preocupada zelando por nós e nos empurrando para frente. Parece loucura, mas sinto tudo isso. Existe um ditado que assegura que "a vida é uma escola", mas vou além, acho que a vida é mesmo uma mãe. Dizer que a vida é uma escola, quer dizer que a vida nos ensina, que a vida é um constante aprendizado, concordo. Contudo, uma mãe não só ensina, mas também educa, dá palmadas, lições de comportamento, conselhos, nos quer bem e prioriza nossa independência. Algumas vezes, quase não notamos que uma vida nos regra e indica nossos passos, nos presenteia com surpresas inusitadas e nos alimenta com aquilo que vem da terra, aquilo que é mais natural e saudável, entre tantos outros benefícios. Uma mãe nos chacoalha quando é preciso ver o que não conseguimos enxergar, e a vida não faz diferente. Quantas vezes não precisei "pegar no tranco" quando acreditava que tudo estava perdido? A vida por si só, em seu instinto materno me fez enxergar. Meu pai diz que Deus é um Pai apaixonado por nós, então talvez não seja só a vida em seu instinto materno, talvez meu solavanco foi um sopro de Deus em sua paternidade. Não sei. Mas ás vezes sinto que a vida me pega no colo e me acalenta até que eu possa dormir.

Era dia e parecia que fiz despertar a aurora, toda vestida de cor-de-rosa. Possuía uma ternura tênue que ludibriava em calma. Uma calma aparentemente serena e aliviada, diria delineada em sutil delicadeza. À primeira vista ainda muito menina, acomodada no sofá, risonha e doce. Devia ser um primor em excelência, de um comportamento cauteloso, eu estava, eu era e permanecia. Não sei por quanto tempo, sei que ficava imóvel almejando me esquivar . Enquanto isso vigiava pela via da vanguarda. Cansada dos laços de fita, do algodão-doce e da bola de sabão. Ouvia comentários dos bailes, dos moços bem apanhados que escolhiam as moças para dançar. Ouvia um burburinho persistente sobre alguns pretendentes que desejavam me cortejar. Não podia prosseguir naquela casa, ali me fariam moça em muitos anos. Pretendia ser moça hoje, era tarde, já não tinha a mesma idade. Depositava esperança em cada olhar pela janela. Deixava o sonho conduzir meu devaneio de um dia ser conduzida perante ao baile. Tinha uma veia no progresso e devia tomar a dianteira ao delírio da noite, ao sopro de minhas quimeras. Mas permanecia menina, intacta no sofá, realizando o sonho de quem me protegia. A minha conduta seria cobrada e para isso continuaria usando laços de fita.